quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

os pirahãs ... hã?

ExtocausticoS
[pois complexo é, porventura... bit]


"Para voltar à interrogação de Russeal, se somos capazes de conhecer tantas coisas é porque, de certo modo, já as conhecíamos antes, mesmo se foram necessários os dados dos sentidos para provocar e fazer emergir esse conhecimento. Ou para dizê-lo de uma forma mais paradoxal, nossos sistemas de crenças são os que o espírito, enquanto estrutura biológica, está destinado a construir. Interpretamos a experiência de determinada maneira em função das características específicas de nosso espírito. Atingimos o conhecimento enquanto as 'idéias interiores ao próprio espírito' e as estruturas que ele cria se conformam à natureza das coisas."

Chomsky, Noam
"Reflexões sobre a linguagem",
Cultrix, São Paulo, 1980.


03 Estórias sobre os Pirahãs


<1> um povo sem lendas, numeros ou deuses
<são apenas... felizes>

A tribo dos pirahãs, formada por cerca de 350 indígenas que vivem às margens do Rio Maici, no Amazonas, tornou-se um desafio para a ciência. Como muitas tribos da região, eles são caçadores e coletores, mas têm características únicas no que diz respeito à comunicação. Seu idioma desafia todas as teorias sobre como a linguagem humana se desenvolveu nas diferentes culturas. Segundo a tese hoje mais aceita sobre o tema, criada por lingüistas como o americano Noam Chomsky, a formação dos idiomas se pauta por uma espécie de gramática universal com regras comuns. O ser humano é dotado de recursos inatos para usar essas regras. Isso permite às crianças perceber os significados das palavras e das frases e aos poucos ampliar seu vocabulário. Essa gramática universal faz com que todos os idiomas tenham frases subordinadas, que estariam na base dos raciocínios complexos: "Depois de comer, vou à sua casa". O idioma dos pirahãs é o único até hoje identificado no mundo que não tem frases subordinadas, contrariando o conceito de gramática universal.

Os pirahãs não têm palavras para descrever as cores. Não usam tempos verbais que indiquem ações passadas. Não há entre eles a tradição oral de contar histórias. Tudo é dito no presente. A língua escrita não existe. Os pirahãs não desenham e desconhecem qualquer tipo de arte. Eles são a única sociedade no mundo, segundo avaliação de antropólogos, que não cultiva nenhum mito da criação para explicar sua origem.

Para completar, os pirahãs não possuem palávras para números e não sabem contar - têm apenas palavras para "um", "dois",  "pouco" e "muito". Podem copiar padrões para um, dois ou até três objetos, mas se confundem quando lidam com quatro ou mais objetos. Apesar de contrariar a teoria da gramática universal, alguns estudiosos consideram a ausência de palávras para designar números como fortes evidências em defesa do determinísmo linguístico – a teoria que defende que o aprendizado depende fortemente da linguagem e que, em algumas áreas ao menos, não se pode pensar sobre coisas para as quais não temos palavras para representar.



[os felizes Pirahãs! ... hã?]


O mais interessante da história é que esse povo muito original não tem nem jamais teve uma religião. Não tem deuses, santos, mitos, lendas, nada. Simplesmente não se preocupam com isso, vivem o dia de hoje. E da maneira mais simples e mais natural provam a nós "civilizados" que é perfeitamente possível viver sem deuses.


Fonte: Lineu O Ateu

<2> gramática universal ????

Recentemente, o linguista Dan Everett, antigo aluno de Chomsky, colocou em xeque a teoria da regra universal aplicável a todas as línguas faladas no mundo. Desde os anos 1970, Everett e sua mulher estudam a tribo Pirahã, que vive às margens do rio Maici, no Amazonas. A tribo fala uma língua que aparentemente não está relacionada com nenhuma outra. Everett afirma que os Pirahã não demonstram fazer uso de um recurso lingüístico que consiste em combinar duas ideias em um único enunciado (exemplo: "o homem caminha pela rua" e "o homem está usando uma cartola" : "O homem que está usando uma cartola caminha pela rua"). Segundo Chomsky, esse recurso seria um marco comum a todos os idiomas.


Além disso, Everett duvida que os Pirahã sejam um caso isolado. "Acredito que uma das razões de não termos encontrado outros grupos como este é porque, simplesmente, disseram-nos que não era possível", declarou a The New Yorker. Os Pirahã usam apenas oito consoantes e três vogais, mas o seu idioma possui grande variedade de tons, sílabas longas e sílabas fortes, e eles podem usar recursos como cantar, cantarolar baixo ou assobiar conversas inteiras. Os fonemas incluem também sons lamentosos nasais, respirações curtas e precisas e sons feitos com estalos ou simplesmente por bater os lábios. As diferenças de significado entre palavras pode depender apenas de mudanças de volume: "amigo" e "inimigo" diferem apenas no volume de uma única sílaba. Os Pirahã também não têm palavras para designar números ou quantidades – termos como "tudo", "cada um", "cada", "muito" ou "pouco" -, algo que era considerado comum a todas as línguas.

Fontes: BBC , Wikipedia


<3> O missionário que virou ateu

Recente reportagem da BBC Radio trouxe uma história curiosa de uma selva que recebeu um missionário e devolveu ao mundo mais um ateu. A história resumida pelo site freethinker.co.uk começa com um missionário norte americano disposto a pregar sua fé aos índios sulamericanos mas que acaba conhecendo os Pirahãs. Uma tribo de gente em contato com a natureza e absolutamente secular. Um povo que terminou por convencer o pregador cristão a se tornar ateu.

[o ex pregador cristão que virou ateu D. Everett se refrescando no rio com um amigo Pirahã tranquilão na canoa]

Daniel Everett, 57, linguista da cadeira de Língua, Literatura e Cultura da Universidade de Illlinois (e ex aluno de Noam Chomsky) disse ao apresentador da BBC, John McCarthy que seu objetivo era levar a alegria da fé cristã aos "povos primitivos", mas acabou descobrindo que aquelas pessoas já eram felizes. De fato, segundo ele muito mais felizes do que a maioria do cristãos que ele conhecia.

A primeira estratégia de Everett foi traduzir o Evangelho de Lucas para a língua dos Pirahãs e fazer uma leitura para os membros do grupo. Mas qual a surpresa do missionário ao ver que mesmo interessados na história, os índios resistiam a toda tentativa de conversão. Os Pirahãs perguntavam se ele próprio havia presenciado todos os milagres que eram contados, e ele teve que admitir que não. Admitiu que simplesmente estava passando adiante o que haviam contado pessoas que por sua vez também não testemunharam nada daquilo.


[localização da tribo Pirahã]

Para os Pirahãs o mundo é como sempre foi e não há nenhuma deidade suprema. Além disso não existem quaisquer mitos da criação, ou súplicas em sua cultura. Eles não demonstraram qualquer necessidade de Deus, religião ou autoridade política ou religiosa para viverem suas vidas.

Ainda segundo freethinker.co.uk o zelo do missionário logo se dissipou. Convencido de que os Pirahãs não apreciavam qualquer significado espiritual da Bíblia, Everret finalmente admitiu que ele mesmo não conseguia mais levá-la a sério. Ele se declarou ateu.

[capa do livro de D. Everett, tradução livre do título: "Não durma, tem cobra por aí"]

Sua honestidade intelectual lhe custou um casamento, vários amigos e a perda de contato com dois de seus três filhos. Sua trajetória com os Pirahãs é contada em seu livro: "Don’t Sleep There are Snakes.", eleito o Livro da semana pela própria BBC Radio 4 que nos trouxe a história.

No livro, Everett argumenta contra um componente da teoria lingüística da gramática universal (GU). A GU é uma teoria amplamente aceita (embora não universalmente), desenvolvida pelo lingüista Noam Chomsky. O princípio básico da GU é que há um conjunto de gramática que é universal entre os humanos, e por esta razão os seres humanos devem ser fortemente ligados pela lanagugem – pois isso esta em nosso genoma. Quando uma criança é criada dentro da, digamos, língua alemã, os componentes da linguagem específica para o alemão são ativados no cérebro. Os componentes para outras línguas, como o Inglês ou o hindi, ficam adormecidos ou desaparecem.


[recursão: aqui vamos nós de novo]

Uma característica que Chomsky cita para apoiar a GU é a presença de recursão em todas as línguas humanas. Recursão, em lingüística, permite um falante incorporar frases dentro de frases. Um exemplo disso pode ser o gato, que comeu o rato, que comeu o queijo, é gordo. A frase principal desta é o gato é gordo, e incorporado na frase vem o gato comeu o rato e o rato comeu o queijo (um exemplo semelhante é encontradano livro). Recursão permite a langaugem ser infinitamente criativa.





Nenhum comentário:

Postar um comentário