Recentemente foi direcionado um comentário neste blog provindo do Sr. Getúlio, mantenedor do blog denominado "O Filósofo". No comentário o Sr. Getúlio alega que a "leitura" do tratado “Ação Humana” do economista austríaco L. Von Mises aqui publicado estaria equivocada, e coloca na sequência um link onde sugere uma resposta ao texto. Nesta resposta, diz ele serem "temerárias" as contestações feitas e publicadas neste blog acerca do tratado da ação humana de Von Mises. Fico sem compreender os motivos de tal temeridade, e ao ler e analisar sua resposta, nota-se que talvez careça de algumas colocações que considero importantes. Tal qual disse o Sr. Getúlio, embora o presente texto seja dirigido especialmente à sua resposta, também representa um esforço pessoal de aprendizado, o qual, também espero, possa ser compartilhado por outros que eventualmente com ele se deparem por aqui.
Em seu texto, o Sr. Getúlio busca responder questões levantadas na parte inicial do texto aqui publicado, e para tanto, demonstra um esforço retórico para legitimar a ideia de que a praxeologia de Mises tenha a alcunha de ciência. Porém, vejamos:
Em princípio pode-se dizer que a ciência somente é válida quando amplamente aceita e verificável. Porém, teorias e ideias são em maior ou menor grau refutadas e/ou incorporadas em outras correntes e ideias, modificadas, dando origem a novas e diferentes ideias. Graças a esta dinâmica o conhecimento não é estático e morto, mas constantemente modificado, renovado e revigorado. O fato é que desde sua ideia original na década de 40, até o presente, nada incorporou seriamente as ideias de Mises neste movimento.... suas ideias somente surtiram efeito dentro do círculo limitado da Escola Austríaca de Economia e da filosofia objetivista. E mesmo dentre seus pares sofre sérias reservas, como veremos mais a frente.
No entanto, evidentemente a ciência não é o altar sacrossanto da ética e da isenção – como poderia se crer a princípio.... Como disse o Milton Santos "a ciência tem, doravante um papel produtivo", ou seja, o trabalho científico foi praticamente colocado a serviço da produção, e a mídia representa um papel decisivo neste desvirtuamento, mas isso, de fato, é tema para outra discussão muito complexa, que podemos deixar para depois.
Uma alegação comumente adotada pelos economistas austríacos é que as imposições da mídia e do mainstream impedem que as ideias de Mises e da Escola Austríaca de Economia sejam devidamente vislumbradas. O que pode-se dizer é que a mídia não esta "plantando ideias" distintas contra Mises ou contra a EAE... O que a mídia reforça, em termos econômicos, é algo distinto das ideias de Mises, e -– havemos de concordar -– muito diferente das ideias de Marx, e mesmo das ideias originais de Keynes, ...apesar de tudo (hoje em dia, com um clique do mouse, acionistas podem mover seu capital para fora do país de origem, em fundos de investimento em mercados emergentes, ou para países mais seguros em termos econômicos p.e.). Ademais, a mídia manipula sim, claro, pois uma queda drástica no consumo pode decretar a falência de muitos filhos e 'amigos' de algumas famílias importantes (no Brasil, p.e: os Frias, os Civitta, Marinho, Mesquita, Santos e uma "religiosa" os Macêdo)... portanto, é preciso manter o crescimento e a expansão a todo vapor!
Portanto, isto tudo mostra como pode ser frágil a defesa incondicional de uma postura objetivista dogmática (os conhecimentos que podemos adquirir são seguros e universais), ou mesmo de uma visão em perspectiva – onde se poderia, a princípio aceitar a existência de uma verdade absoluta, mas que a ninguém seria possível atingi-la em sua plenitude. Evidências históricas nos mostram que a preferência por certos padrões investigativos, e por certos objetivos cognitivos variam no tempo e no espaço, e são dependentes do contexto considerado. Assim, seriam questionáveis as tentativas de codificar a racionalidade científica mediante um certo conjunto de regras metodológicas que guiam a atividade científica; e também seria questionável a tese de que a racionalidade científica permaneça em grande parte estável e invariante com o passar do tempo, apesar das novas descobertas e das mudanças sociais e culturais. De qualquer forma, obviamente, como nos mostra o Sr. Getúlio em sua resposta, somos levados a reconhecer que a racionalidade científica não garante a formação do consenso, no sentido de que existem legítimos desacordos racionais na ciência.
Retomando o tema da praxeologia, Mises alegava que a ideia fundamental de seu sistema praxeológico é o axioma da ação humana. Esta proposição diz que toda ação humana é racional, porque toda a ação é, por definição proposital (deve-se notar que “proposital” é só uma redefinição peculiar do termo "racional", mas vamos aceitar a definição por hora). Mises argumentou que o axioma da ação humana era uma proposição sintética a priori. Proposições sintéticas a priori são um tipo de proposição proposto por Kant. Portanto, a praxeologia de Mises é um exemplo perfeito de apriorismo. Porém, não há nenhuma razão para acreditar que apriorismos fornecem um método consistente e confiável para a obtenção de teorias verdadeiras sobre o mundo real. Praxeologia tem afinidades óbvias com as filosofias de grandes racionalistas, [além de Kant], e neste grupo, certamente podemos encontrar muitos autores cujas ideias foram, em maior ou menor grau, refutadas.
Em outras palavras, a praxeologia depende de dedução, e requer premissas que são proposições sintéticas não verdadeiras a priori. O axioma diz que ações humanas voluntárias (exceto pelas insanas) são propositadas, e isso é usado nas deduções primeiras da praxeologia.
Ora, tal axioma é uma observação trivial que pode tranquilamente ser empregada por socialistas, marxistas, keynesianos, monetaristas, comunistas, capitalistas, etc.... ou qualquer outra 'escola' que se queira. E não existe mais nada de importante que se possa deduzir a partir disso. Fato é que entusiastas vulgares ou "pop" de tais ideias, fazem reivindicações verdadeiramente absurdas com base nesse axioma, como se todas as inferências da economia austríaca fossem verdades absolutas e irrefutáveis porque seguem o axioma da ação humana. Em seu tratado sobre a ação humana, Mises afirma que as afirmativas e pressupostos da praxeologia "não estão sujeitas a verificação com base na experiência e nos fatos." [Mises, Ação Humana, pg. 59]. Porém, deve-se lembrar aos misenianos que mesmo o próprio Mises registrou reservas acerca do axioma por ele criado:
“Todo teorema da praxeologia é deduzido pelo raciocínio lógico da categoria de ação. Ele parte da certeza apodíctica fornecida pelo raciocínio lógico que começa a partir de uma categoria a priori. Na cadeia de raciocínio praxeológico o praxeologista introduz certas suposições sobre as condições do ambiente em que uma ação tem lugar. Em seguida, ele tenta descobrir como essas condições especiais afetam o resultado para que este raciocínio deva conduzir. A questão de saber ou não se as condições reais do mundo externo correspondem a estes pressupostos é para ser respondida pela experiência.” (grifos meus) [Mises, L. 1978 [1962]. The Ultimate Foundation of Economic Science: An Essay on Method (2nd edn, Sheed Andrews & McMeel, Kansas City .]
A "certeza apodítica" afirmada pela praxeologia realmente desaparece como fumaça de cigarro se houver dúvida sobre a verdade de suas declaradas premissas sintéticas e hipóteses ocultas. Portanto aceitar os declarados axiomas de Mises não implica necessariamente em aceitar seus "princípios", ou suas implicações à realidade, mesmo que sua lógica seja impecável! Tal como disse George J. Schuller, já há muito tempo: "quando uma cadeia lógica cresce além dos limites estabelecidos por suas suposições declararadas, tais suposições já não podem mais ser declaradas válidas". [Schuller, G. J. 1951. “Mises 'Human Action': Rejoinder” American Economic Review]. E verifica-se uma grande quantidade de suposições declaradas, baseadas em cadeias lógicas no tratado da Ação Humana de Von Mises.
Ainda, nem mesmo F. A. Hayek realmente compactuava com as ideias de Mises neste aspecto - vejamos o que o economista da escola austríaca disse a respeito:
"Eu nunca aceitei o apriorismo de Mises (...) Certamente 1936 foi o momento em que vi pela primeira vez a minha abordagem distinta com plena clareza --- mas naquele momento senti que eu era somente o último capaz de dizer claramente o que eu sempre acreditei --- para explicar com cuidado a Mises por que eu não podia aceitar seu apriorismo " [citado em: Caldwell, B. J. 1984. “Praxeology and its Critics: An Appraisal,” History of Political Economy 163: 363–379.]
Bem, para tentar colocar tudo em termos mais "práticos", para compreender o comportamento bovino, vou lançar o seguinte axioma:
"O pasto da fazenda é verde, e o gado come o pasto!"
O axioma é válido e ninguém pode negá-lo. Tal como a praxeologia....
Porém, ...
Posso inferir que o gado come o pasto simplesmente porque é verde.... e tirar conclusões muito absurdas acerca da alimentação bovina ao tentar alimentá-los com geleia de menta por exemplo.... E ainda, nada me diz o axioma acerca da cadeia de energia envolvida, ou seja: radiação solar -- fotossíntese -- pasto -- gado -- abate -- transporte -- açougue -- bife -- digestão -- este raciocínio....! Em vez disso, quando os misenianos fazem suposições para depois usar um raciocínio a priori e fazer inferências usando essas proposições, suas conclusões são válidas quando aplicadas ao mundo por eles imaginado, restrito às suas crenças, valores, limitações, etc, onde as hipóteses podem ser hipoteticamente válidas. Porém, se como disse o Sr. Getúlio em seu texto, se "as ciências não são conjuntos de crenças, mas reais conhecimentos sobre o mundo”, como se pode construir conhecimento baseado em axiomas-apriorísticos, que nada dizem a respeito da realidade última das pessoas? e erigir daí suas teorias acerca das preferências das pessoas, preços, desigualdade, liberdade, propriedade, etc, etc...
Que fique bem claro, não se questiona aqui a validade do axioma em sí, mas sim sua aplicação na sociedade: qualquer inferência absurda pode ser feita a partir do pressuposto, como, para citar um exemplo, a "teoria do valor subjetivo", ou a " teoria da utilidade marginal" que não foram propostas originalmente por Mises, mas são amplamente amparadas pelos axiomas misenianos, o que a torna evidentemente bastante questionável, para se dizer o mínimo. Mas seria preciso dedicar um certo esforço para se tentar provar detalhadamente a falsidade destas inferências, o que pretendo fazer na medida do possível....
Em resumo, ao se excluir deliberadamente do escopo de análise -- no que tange o comportamento humano -- dados sócio-históricos e as realizações da ciências cognitivas, da psicologia, da biologia, da sociologia, etc., --- denegrindo-as ao denomina-las de "irracionalismos", "polilogismos" (denominação provavelmente criada pela imaginação fértil de Mises, por sinal, visto que não consta em dicionários e nem é usado por mais ninguém, em lugar nenhum – além de filósofos do objetivismo e da EAE, claro....), etc -- e delimitar toda e qualquer inferência a partir destas restrições impostas,... de fato e sui generis, resta muito pouco para se clamar por ciência, e é virtualmente impossível analisar qualquer coisa eticamente e sem a isenção necessária e requerida pelo método da ciência [apesar de todos os apesares alertados acima.....].
